A Metade perdida do Coliseu: o que aconteceu com ela?

Quem chega ao Coliseu pela primeira vez estranha. O monumento mais famoso de Roma parece… incompleto. Um lado está de pé, imponente, com todos os seus arcos empilhados. O outro lado, por sua vez, tem apenas um esqueleto de paredes internas, como se alguém tivesse cortado o edifício ao meio com uma faca gigante. Não é ilusão de ótica. A metade perdida do Coliseu realmente sumiu, e a história por trás disso é muito mais interessante do que “o tempo destruiu”.

Neste artigo, você vai entender o que aconteceu com essa metade, para onde foram as pedras do Coliseu, o que existe debaixo do piso da arena e quais restaurações estão sendo feitas para que o monumento volte a ter uma aparência mais próxima do original.

 


Por que a metade perdida do Coliseu desapareceu?

A resposta curta é: terremotos, saques e séculos de descaso. Porém, para entender de verdade o que aconteceu, é preciso voltar ao ano de 1349.

Naquele ano, um terremoto devastador atingiu Roma e destruiu praticamente toda a fachada sul do Coliseu. O lado norte, em contrapartida, sobreviveu quase intacto. E isso não foi coincidência. De acordo com pesquisadores, a diferença está no solo. A parte norte do Coliseu foi construída sobre rochas vulcânicas sólidas, que absorveram bem o impacto do tremor. Já o lado sul ficava sobre um terreno mais mole e poroso, por onde passava o aqueduto que Nero utilizou para alimentar o lago artificial de seu palácio antes da construção do anfiteatro. Assim, quando o chão tremeu, o lado sul cedeu.

Contudo, o terremoto foi apenas o golpe final. Antes disso, a estrutura já havia sido enfraquecida por algo ainda mais sistemático: os próprios romanos foram desmontando o Coliseu tijolo por tijolo.

 


Para onde foram as pedras do Coliseu?

Depois que o anfiteatro saiu de uso, no século VI, ele se tornou, na prática, uma pedreira urbana. Durante séculos, papas, cardeais e nobres retiraram mármore, travertino e tijolos do Coliseu para construir outras obras em Roma.

Por conseguinte, parte do Coliseu foi parar em alguns dos edifícios mais importantes da história. Entre os destinos comprovados estão:

  • A Basílica de São Pedro, no Vaticano
  • A Basílica de São João de Latrão
  • O Palazzo Farnese, hoje sede da Embaixada da França em Roma
  • O Palazzo Barberini, que abriga parte da coleção de arte do Estado italiano

Além disso, os buracos visíveis nas paredes do Coliseu não são resultado do tempo. Eles mostram exatamente onde estavam os ganchos de metal que prendiam os blocos de pedra. Quando os trabalhadores arrancaram esses ganchos para reutilizá-los, deixaram as marcas que você ainda vê hoje.

Em suma, uma boa parte do Coliseu está espalhada por Roma, embutida em outros edifícios históricos. Quando você visita a Basílica de São Pedro, há uma chance real de que esteja tocando uma pedra que um dia sustentou as arquibancadas onde os romanos assistiam às lutas de gladiadores.


O que existe embaixo do Coliseu: O hipogeu

 

Se a metade desaparecida é a parte mais visível do mistério, o hipogeu é, sem dúvida, a parte mais fascinante. Ele é a alma escondida do Coliseu.

O Que é o hipogeu?

A palavra “hipogeu” vem do grego e significa, literalmente, “abaixo da terra”. No contexto do Coliseu, trata-se de um complexo subterrâneo de dois andares construído sob o piso da arena. O hipogeu foi erguido pelo imperador Domiciano, cerca de uma década após a inauguração do anfiteatro em 80 d.C., e funcionou como a infraestrutura invisível que tornava os espetáculos possíveis.

Do ponto de vista das dimensões, o hipogeu é impressionante: ocupa aproximadamente 6.000 metros quadrados e se estende por toda a extensão do piso da arena, com corredores, câmaras, passagens e mecanismos mecânicos.

 

O que havia lá dentro?

O hipogeu era dividido em duas grandes funções. No nível inferior, ficavam as gaiolas dos animais: leões, tigres, leopardos, ursos, rinocerontes, crocodilos e outras criaturas trazidas de todos os cantos do Império Romano aguardavam ali o momento de subir para a arena. No nível superior, por sua vez, ficavam os gladiadores nos momentos que antecediam os combates, além de cenários, figurinos e adereços teatrais usados nas encenações.

O sistema de elevadores

O elemento mais surpreendente do hipogeu é o sistema de 80 elevadores verticais distribuídos por toda a extensão do complexo. Esses elevadores podiam subir simultaneamente animais, gladiadores e objetos de cena pelas escotilhas do piso da arena. Cada elevador funcionava com um sistema de contrapesos movido por equipes de escravos que trabalhavam em turnos sincronizados.

Dessa forma, o público que assistia às arquibancadas via gladiadores e feras surgirem do chão como se fossem convocados por magia. O efeito de surpresa fazia parte do espetáculo.

Por que o hipogeu ficou escondido por tanto tempo?

Por volta do início do século XIX, o chão do hipogeu estava soterrado sob quase 12 metros de terra e entulho acumulados ao longo de séculos. Toda memória de sua existência havia se perdido. Somente no século XX os arqueólogos conseguiram escavar e estudar o complexo de forma sistemática. Desde os anos 2010, o hipogeu está aberto ao público por meio de visitas guiadas, e ainda hoje continua sendo estudado.

 


A restauração mais ambiciosa dos Últimos Séculos

Se o hipogeu ficou exposto depois que os arqueólogos removeram o piso original da arena no século XIX, a Itália decidiu, em 2021, devolver esse piso ao Coliseu. Ainda que de forma diferente.

O governo italiano aprovou um projeto de restauração que prevê a instalação de um novo piso retrátil sobre a arena, reproduzindo o efeito original. A proposta vencedora foi desenvolvida pela empresa de engenharia italiana Milan Ingegneria e prevê um piso de madeira de Accoya (um pinho de tratamento especial, sustentável e durável) com painéis rotativos que se abrem para revelar o hipogeu abaixo.

Além disso, o novo piso foi projetado para ser completamente reversível. Ou seja, pode ser removido no futuro sem danificar a estrutura histórica do monumento. O projeto estava previsto para ser concluído em 2023, mas ainda não foi finalizado até o momento. Ainda assim, ele representa uma das iniciativas de restauração mais ambiciosas dos últimos séculos, com um investimento superior a 18 milhões de euros.

Quando concluído, os visitantes poderão caminhar pelo centro da arena, no mesmo ponto onde os gladiadores lutavam, com as paredes de 47 metros de altura ao redor. É uma experiência que, por muito tempo, só foi possível imaginar.

 


FAQ: Perguntas frequentes sobre o Coliseu

Por que só metade do Coliseu está de pé?

O lado sul do Coliseu desabou principalmente por causa do terremoto de 1349, que atingiu Roma com grande intensidade. O lado norte sobreviveu porque foi construído sobre rochas vulcânicas sólidas. O lado sul, por sua vez, estava sobre um solo mais frágil, o que fez com que cedesse com o tremor.

Para onde foram as pedras que faltam no Coliseu?

Durante séculos, o Coliseu foi usado como pedreira urbana. As pedras foram reaproveitadas em construções como a Basílica de São Pedro, o Palazzo Farnese e o Palazzo Barberini, entre outros edifícios históricos de Roma.

O que é o hipogeu do Coliseu?

O hipogeu é o complexo subterrâneo de dois andares que ficava abaixo do piso da arena. Era lá que os gladiadores e os animais aguardavam antes de subir para os combates. O complexo contava com 80 elevadores e câmaras de preparação e ficou sepultado sob metros de terra por séculos até ser redescoberto.

O Coliseu está sendo restaurado?

Sim. O projeto mais recente prevê a instalação de um novo piso retrátil sobre a arena, que vai permitir que os visitantes caminhem no centro do anfiteatro e, ao mesmo tempo, visualizem o hipogeu abaixo. O projeto foi aprovado em 2021 e está em andamento, com investimento de mais de 18 milhões de euros.

Dá para visitar o hipogeu do Coliseu?

Sim. Desde os anos 2010, o hipogeu está aberto ao público por meio de visitas guiadas especiais. O acesso não está incluído no ingresso básico e exige reserva antecipada.

 


Conclusão: Uma ruína que conta mais do que parece

O Coliseu incompleto que você vê hoje não é apenas o resultado do tempo. É o registro de terremotos, saques, transformações políticas e séculos de história sobreposta. Cada buraco na parede conta uma história. Cada pedra ausente foi parar em algum outro lugar da cidade.

Além disso, o que existe abaixo do piso da arena revela uma engenharia tão sofisticada que ainda nos surpreende depois de quase dois mil anos. Visitar o Coliseu sem conhecer o hipogeu é como ler apenas a capa de um livro extraordinário.

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Fontes consultadas: