Quando se fala em Itália, a mente vai direto para Roma, Florença e Veneza. Mas há uma outra Itália, menos conhecida pelos brasileiros, que guarda séculos de história em cada pedra, ruela e torre. As cidades medievais da Itália são destinos que parecem ter pausado o tempo: centros históricos intactos, praças milenares, catedrais que levaram décadas para ser construídas e histórias que poucos livros contam.
Este artigo é para quem quer ir além do óbvio. A seguir, você vai conhecer as cinco cidades medievais italianas mais fascinantes, com tudo o que há de mais surpreendente em cada uma delas.
1. San Gimignano: a Manhattan da Idade Média
San Gimignano fica na Toscana, a 56 km de Florença, e é impossível não reconhecê-la de longe. O horizonte da cidade é todo marcado por torres medievais que ainda se impõem sobre o vale, como se o tempo nunca tivesse passado. Hoje são 14 torres de pé, mas no auge da cidade, durante os séculos XIII e XIV, eram 72.
Por que as famílias construíam torres?
A resposta diz muito sobre a mentalidade medieval: poder e rivalidade. As famílias mais ricas de San Gimignano competiam entre si construindo torres cada vez mais altas, numa espécie de corrida imobiliária do século XIII. Quanto mais alta a torre, maior o prestígio da família. Quando a briga ficou tão intensa que ameaçava a cidade, o conselho local decretou que nenhuma torre poderia ultrapassar a altura da Torre do Palazzo Comunale, que tem 54 metros.
Essa torre, a Torre Grossa, é a única que o público pode subir até hoje. De lá de cima, a vista sobre os vinhedos e ciprestes da Toscana é uma das mais bonitas que você vai ver na Itália.
A Via Francigena e o gelato mais premiado do mundo
San Gimignano foi durante séculos uma parada obrigatória para os peregrinos que faziam o caminho entre Canterbury e Roma pela Via Francigena. Essa rota medieval moldou a arquitetura e a cultura da cidade. Além disso, San Gimignano guarda uma curiosidade gastronômica: a Gelateria Dondoli, instalada na Piazza della Cisterna, conquistou o título de melhor gelato do mundo em campeonatos internacionais. Portanto, sair da cidade sem experimentar é um erro que você não vai querer cometer.
O centro histórico é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1990 e abriga também alguns dos mais impressionantes afrescos do século XIV da Toscana.
2. Siena: a cidade que vive para o Palio
Siena é uma das cidades medievais mais bem preservadas de toda a Europa. Ao contrário de muitas cidades italianas que misturaram épocas e estilos ao longo dos séculos, Siena parece ter congelado no século XIV, quando era uma das cidades mais ricas e influentes do continente. O centro histórico é Patrimônio Mundial da UNESCO e você percebe o porquê assim que entra por qualquer uma das suas portas medievais.
A Piazza del Campo e o piso dividido em nove
A grande praça de Siena, a Piazza del Campo, tem uma forma de concha que não existe em nenhum outro lugar do mundo. O piso em tijolo vermelho está dividido em nove segmentos, uma homenagem ao Governo dos Nove, o conselho que governou a cidade durante o seu período de maior esplendor, entre os séculos XIII e XIV. É ali que acontece, duas vezes por ano, o Palio di Siena.
O Palio: uma corrida que vai além do esporte
O Palio não é uma corrida de cavalos comum. É uma batalha. A cidade está dividida em 17 contrade, que são bairros com identidades, brasões, cores e rivalidades próprias, transmitidas de geração em geração. Em 2 de julho e 16 de agosto, dez dessas contrade disputam uma corrida de três voltas em torno da Piazza del Campo, com os jóqueis montando sem sela e os cavalos abençoados pela Igreja antes da largada.
Uma peculiaridade fascinante: o cavalo pode vencer mesmo sem o jóquei. Se o animal cruza a linha de chegada sozinho, a contrada ganha da mesma forma. A preparação dura meses, envolve intrigas, alianças e traições entre os bairros, e o dia da corrida paralisa a cidade inteira.
Além do Palio, Siena tem o Duomo, uma catedral com fachada em mármore branco e verde escuro que é um dos maiores monumentos do gótico italiano, e o Palazzo Pubblico, com sua torre esbelta que domina toda a praça.
3. Orvieto: a cidade construída sobre um vulcão
Orvieto não fica no fundo de um vale nem no alto de uma montanha. Ela repousa sobre um imenso bloco de tufo vulcânico, uma rocha porosa formada por séculos de erupções, erguida a pique sobre a paisagem da Úmbria. A visão é perturbadora no bom sentido: você chega pela estrada e de repente vê uma cidade inteira suspensa sobre uma rocha cor de ferrugem.
Uma cidade com dois mundos
O que poucos turistas sabem é que Orvieto existe em dois planos. A cidade que você vê por cima tem suas ruelas, igrejas e praças medievais. Mas abaixo dela existe outra cidade, escavada na rocha pelos etruscos há mais de 2.500 anos. São mais de 1.200 túneis, galerias, poços e passagens que se entrelaçam sob os pés dos moradores. Parte desse labirinto subterrâneo pode ser visitada em tours guiados que saem diretamente da Piazza del Duomo.
O mais impressionante do mundo subterrâneo é o Poço de São Patrício, construído em 1527 a mando do Papa Clemente VII. Tem 53 metros de profundidade e foi projetado com duas rampas em espiral que nunca se cruzam, formando uma dupla hélice, para que as mulas que desciam com baldes vazios não encontrassem as que subiam com baldes cheios de água. Uma solução de engenharia do século XVI que ainda impressiona engenheiros hoje.
A catedral mais dourada da Itália
A fachada do Duomo de Orvieto é coberta de mosaicos dourados que brilham ao sol de uma forma que nenhuma foto consegue capturar direito. A construção começou em 1290 e levou mais de três séculos para ser concluída. No interior, os afrescos do Juízo Final pintados por Luca Signorelli no final do século XV influenciaram diretamente Michelangelo quando ele foi pintar a Sistina.
Orvieto fica a apenas 90 minutos de Roma e é, sem dúvida, um dos melhores bate-voltas que você pode fazer saindo da capital.
4. Gubbio: a cidade que o tempo esqueceu
Se você quer entender como era a Itália medieval de verdade, Gubbio é provavelmente o lugar mais honesto para isso. Encravada na encosta do Monte Ingino, no nordeste da Úmbria, a cidade tem ruas estreitas e escuras, palacetes em pedra cinzenta do século XIV e uma atmosfera que não tenta imitar o passado porque o passado simplesmente nunca foi embora de lá.
As Tábuas de Igúvio e o maior segredo da cidade
O maior tesouro de Gubbio está dentro do Palazzo dei Consoli, o palácio cívico do século XIV que domina a Piazza Grande com seus 60 metros de altura. Lá dentro ficam as Tábuas de Igúvio, sete placas de bronze encontradas no século XV com inscrições em latim e na antiga língua umbra. São o maior texto sobrevivente escrito em umbro e um dos documentos históricos mais importantes do mundo antigo.
O Palazzo dei Consoli e a cadeia medieval
O Palazzo dei Consoli em si já vale a visita. Construído entre 1332 e 1349, é considerado um dos melhores exemplos de arquitetura gótica civil da Itália. Dentro dele ainda se conserva uma gaiola de ferro medieval que era usada para expor publicamente ladrões e criminosos nas janelas do palácio. A punição era tanto física quanto simbólica: o condenado ficava exposto ao escárnio de toda a cidade.
A corrida dos Ceri
Todo dia 15 de maio, Gubbio realiza a Corsa dei Ceri, uma das festas mais antigas e estranhas da Itália. Três grupos carregam nos ombros estruturas de madeira em forma de vela, com mais de 4 metros de altura e cerca de 400 quilos cada, correndo pelas ruas íngremes da cidade em homenagem ao padroeiro Sant’Ubaldo. A festa existe há mais de 900 anos e não tem nada de turístico: é pura tradição, suor e devoção.
5. Lucca: a cidade que se vive por cima das muralhas
Lucca é diferente de todas as outras cidades desta lista. Enquanto San Gimignano sobe para o céu com suas torres e Orvieto flutua sobre a rocha, Lucca se fecha sobre si mesma atrás de uma muralha que tem mais de quatro quilômetros de extensão, 30 metros de largura e 12 metros de altura. E o detalhe mais surpreendente: você pode caminhar, correr ou pedalar em cima dessa muralha, que hoje funciona como um parque elevado ao redor da cidade.
A muralha que nunca foi usada em batalha
Construída entre 1545 e 1650, a muralha de Lucca é tecnicamente renascentista, não medieval. Mas ela preservou intacto o traçado urbano medieval que existe dentro dela. O curioso é que essa muralha jamais foi usada numa guerra de verdade. A única vez que ela cumpriu papel defensivo foi em 1812, quando o Rio Serchio transbordou e a estrutura impediu que a cidade fosse inundada. Salvou Lucca de um rio, não de um exército.
Outra curiosidade: a cidade tinha apenas três portões, abertos para o norte, o oeste e o sul. A leste, onde ficava Florença, inimiga histórica de Lucca, não havia porta alguma.
A Torre Guinigi e o jardim suspenso
No coração da cidade, a Torre Guinigi é um dos monumentos mais improváveis que você vai encontrar na Itália. Construída no século XIV pela família Guinigi, uma das mais poderosas de Lucca, a torre tem no seu topo um jardim suspenso com carvalhos que cresceram lá no alto ao longo dos séculos. Subir os 230 degraus até o jardim e olhar os telhados medievais de Lucca com árvores ao redor é uma experiência que não tem comparação.
Dentro das muralhas, Lucca conserva igrejas, anfiteatros romanos transformados em praças circulares, palácios e ruas que seguem exatamente o mesmo traçado de 2.000 anos atrás.
Como visitar as cidades medievais da Itália com a Barraqueiro Tour
San Gimignano, Siena e Lucca ficam na Toscana e podem ser combinadas em roteiros saindo de Roma ou de Florença. Orvieto fica a 90 minutos de Roma e é perfeita para um dia inteiro dedicado a explorar a cidade no seu ritmo. Gubbio, na Úmbria, pode ser combinada com Assis e Perugia em um roteiro pelo coração verde da Itália.
A Barraqueiro Tour oferece passeios privativos a todas essas cidades, com motoristas que falam português e itinerário montado de acordo com o que você quer ver. Assim, você aproveita cada detalhe sem se preocupar com transporte, idioma ou logística.
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Perguntas frequentes sobre as cidades medievais da Itália
Qual é a cidade medieval mais bem preservada da Itália?
Gubbio e San Gimignano costumam aparecer no topo das listas. Gubbio tem a aparência mais autêntica, com pouco turismo de massa e arquitetura quase intocada. San Gimignano, por sua vez, é a mais famosa e tem o maior número de monumentos medievais concentrados em uma área pequena.
Vale a pena visitar as cidades medievais da Itália em um dia?
Sim, especialmente Orvieto, San Gimignano e Lucca, que têm centros históricos compactos e muito bem organizados para visitação. Contudo, se você quer realmente absorver a atmosfera de cada lugar, o ideal é não encaixar mais de duas cidades no mesmo dia.
Posso visitar essas cidades saindo de Roma?
Sim. Orvieto é a mais fácil, a apenas 90 minutos de carro. San Gimignano e Siena ficam cerca de 2h30 de Roma. Gubbio fica a aproximadamente 3 horas. Portanto, todas são viáveis como bate-volta saindo da capital.
Essas cidades são adequadas para famílias com crianças?
Com certeza. As cidades medievais têm ruelas para explorar, torres para subir e praças para as crianças correrem. Lucca, em especial, é ideal para famílias porque dá para alugar bicicletas e pedalar em cima das muralhas, o que encanta adultos e crianças igualmente.
Qual a melhor época para visitar as cidades medievais italianas?
Primavera (abril a junho) e outono (setembro a outubro) são as estações ideais. O clima é agradável, as multidões ainda não tomaram conta e a luz do sol sobre as pedras medievais é simplesmente perfeita para fotos.
